“Assimetria das curvas dos rios daquelas matas interiores tocando as linhas retas das estradas da Nova Ibéria; anúncio do novo com seus chips eletrônicos e suas danças para chuvas”.

domingo, 9 de março de 2014

É!
é de fôrma o escarro que sai destas ventas entumecidas? é de ideia a poeira sob as unhas que roçaram teu corpo morno de nervos dilacerados? é de verdade o estafo dos musgos esquecidos em pedras pré-históricas? é de lógica os miúdos estalados no asfalto de gato atropelado? é de ser o devir que me esmaga e me inventa no dorso de mim mesmo?????

segunda-feira, 3 de junho de 2013

VERSO



Quando entardece a quentura espeta o nervo
De rubro o céu que se faz em pinceladas febris
Ao rubro sangue que aperta os canais de minh’alma
Resta o desejo de tarde no contrátil do corpo miúdo
Que é o anúncio do extenso por-vir
A madrugada tímida que sobe da vela de um dia exausto
No banho crepuscular da aurora faceira que aponta de trás do monte:
O calmo das águas estreitas, o sibilar dos sinos barrocos, a pirueta de saci amestrado
A certeza indigesta que é mais longe, nos tarde das horas,
Que o verso vem!

sábado, 20 de abril de 2013

"Vede o espectador teatral. Logo que o último ato chega ao meio, ei-lo nervoso, danado por sair. Para quê? Para tomar chocolate depressa. E por que depressa? Para tomar o bonde onde o vemos febril ao primeiro estorvo. Por quê? Porque tem pressa de ir dormir, para acordar cedo, acabar depressa de dormir e continuar com pressa as breves funções da vida breve" (João do Rio).

Seres autômatos desfilam em suas funções diárias cientes de sua liberdade para escolher a cor do refrigerante. Escolhemos também a forma de pagamento quando podemos pagar. Determinismos mil explicam o assombro dessas vidas que passam no trânsito de um estímulo ao outro. Não há afecção, intervalo para o prenúncio do gozo. Há cosquinhas no baixo ventre e a satisfação pueril de quem persegue a todo custo qualquer prazer. Não há introspecção. Há atrofia e explicações sociológicas mirabolantes para o automatismo e o desencantamento do mundo. O mundo encantado é que se aliena dos homens para não participar deste espetáculo tétrico do deboche universal. Os deuses dão as costas. Desencantamento nosso, as coisas do mundo não tem nada a ver com isso. O esforço de humanização nos retira a viscosidade do chão em troca de asfalto, proteção e ordem A arte autômata é objeto do escrutíneo sociológico, produto social, afinal todos somos humanos. Autômatos, mas homens. E de uma ação apressada a outra, a promessa do gozo fugidio do próximo instante ao som de Mr Catra ou Satie. É o império democrático da indiscernibilidade. Saudade minha da escatologia cristã ou marxista ou qualquer metafísica que devolva a grandeza das coisas!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O que é o silêncio?

O silêncio são seis cordas sem guitarras.

Jairo Anibal Niño.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Memórias Cubanas

Preguiçoso, fui a Cuba e até agora nada de palavras que toque o sonho acordado. Vontade de retorno, tudo muito embaralhado e a promessa de poesia com as barbas de Fidel. Nesse ínterim brinco com os meus pêlos: bigode, barba, cavanhaque, costeleta... Amigos soçobram, e sozinho tenho mais paz. Meu dedo, desde que me credenciaram um rabisco socialmente útil,
está mais rígido que outrora, parafusos a enroscar as banhas dos outros. Os outros, o inferno de todo dia, metralhadoras a romper meu tímpano. Os outros, Revolução social, marchinha militar matutina em Cienfuegos... Camilo? Não, recrutas nascidos em 26 de Julho a serpentear o corpo em possessão de maracas reverberando calientes nos sacolejos de gringa obesa.
La antevision del progreso de la humanidad: Um pau tropical.

domingo, 2 de janeiro de 2011

entoada do velhinho na estrada da fazendinha Nossa Senhora de Aparecida

Velhos, quase acabados, não permitem ainda a composição final que ecoaria em matéria dura, apodrecida nos caixotes fúnebres, no gozo pesar dos que ficam ainda inconclusos.

São tortos em seu vagar, mal se encaixam nos passos que um dia foram firmes na terra esturricada, batida dos serros distantes, no tempo inscrito em ruga do corpo que aponta pra dentro.

Murchos, espreguiçam os beiços para orvalhar gostos, arregalam olhos cinzas que não discernem cores. Apontam pra dentro como seu o Sol, o vivo rubor, fosse a lembrança de um Sol vivo que enverdecia as folhas do milho,

Em cada sabugo torcido, mil sóis a vibrar em nossos ventres dormidos.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Zumbi abrindo Xingu II

A negro leo.

Sob os pés da humanidade de cinza tez
A quentura do magma
Feito preto-feijão em panela véia a destroçar nervos,
Doce sumo revolucionário do que resta
Do banquete de rosada gente.

Sobre os cílios que farfalham em sorriso-bananeira,
Ventos intrépidos, quiçá tambores de guerra,
Toda pressão da atmosfera em banho crepuscular
Que comprime argolas e patíbulos
Em carne crua e magra,
Preta carne num caledoscópio sem cores.

O sangue festivo quando não arde em pus de ferida aberta,
Explode vermelho em cantiga de noite
Quando os senhores dormem seu sonho culpado
E a canalha dorme em sonho acordado.

Pra lá do poente neon-anil,
Ver-te em sons é expurgar o pecado da cor
É fazer-te em preto-escuro, quase rubro,
Esta noite clara e sem estrelas.