Vovô enchia caminhões de areia esvaziando o rio
Eu carrego o nome.
“Assimetria das curvas dos rios daquelas matas interiores tocando as linhas retas das estradas da Nova Ibéria; anúncio do novo com seus chips eletrônicos e suas danças para chuvas”.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Boa Esperança
A chuva desliza em leito frouxo.
Toca a terra a beira das casas de taipa desses ermos onde terra quase não há.
Há beiras e cigarros mascados, pinguelas e cãezinhos chorosos debaixo de pontes cambeiras.
Os sapos prolongam a rouquidão da noite,
E dia não há para os olhos acordarem febris como o sol.
As cores se exilaram, e a imensidão é cinza.
As hortas afogam em prantos. Haverá fome.
Quisera o rio se acometer da frouxidão dos leitos:
Esguio, apruma o corpo com brabeza.
Grosso de barro até as tampas, lambe beiras e canelas.
Desdenha as margens e a solidão do que passa.
Surdo com seu rumor de animal enredado,
Não espera o sol desvanecer-se de sua mortalha de frio.
Corre reto deslizando nas curvas crispado de chuva e esperança vã.
Vão será o mar de mil afagos e infinitos acalantos?
Toca a terra a beira das casas de taipa desses ermos onde terra quase não há.
Há beiras e cigarros mascados, pinguelas e cãezinhos chorosos debaixo de pontes cambeiras.
Os sapos prolongam a rouquidão da noite,
E dia não há para os olhos acordarem febris como o sol.
As cores se exilaram, e a imensidão é cinza.
As hortas afogam em prantos. Haverá fome.
Quisera o rio se acometer da frouxidão dos leitos:
Esguio, apruma o corpo com brabeza.
Grosso de barro até as tampas, lambe beiras e canelas.
Desdenha as margens e a solidão do que passa.
Surdo com seu rumor de animal enredado,
Não espera o sol desvanecer-se de sua mortalha de frio.
Corre reto deslizando nas curvas crispado de chuva e esperança vã.
Vão será o mar de mil afagos e infinitos acalantos?
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
La Conquista de Abya Ayala
Pra lá do poente avistam senhores de ventos e mar a fincar cruzes e espadas.
Olhos mareados procuravam às cegas o chamuscar das espadas mouras e vislumbravam por trás de paredões inalcançáveis o grito efusivo do Rei a cruzar a galope o pecado.
Os corações ainda pulsavam nas mãos quando do primeiro estrondo. Nem os espelhos salvaram. Pularam os muros de pedra flamejante e caíram numa escuridão molhada, tragados pelo ouro que carregavam. Triste noite aquela que não se ouvia o vento; o murmúrio da guerra empapava as botas encarniçadas pelo barro seco. O coração pulsava valente sob a pele fina da terra. Tambores de guerra em anúncio profético...
O medo assolava a tropa até a chegada de cortês figura,
a cruzar a galope o pecado.
Olhos mareados procuravam às cegas o chamuscar das espadas mouras e vislumbravam por trás de paredões inalcançáveis o grito efusivo do Rei a cruzar a galope o pecado.
Os corações ainda pulsavam nas mãos quando do primeiro estrondo. Nem os espelhos salvaram. Pularam os muros de pedra flamejante e caíram numa escuridão molhada, tragados pelo ouro que carregavam. Triste noite aquela que não se ouvia o vento; o murmúrio da guerra empapava as botas encarniçadas pelo barro seco. O coração pulsava valente sob a pele fina da terra. Tambores de guerra em anúncio profético...
O medo assolava a tropa até a chegada de cortês figura,
a cruzar a galope o pecado.
quinta-feira, 2 de outubro de 2008
Zumbi abrindo o Xingu
A Castro Alves,
Oh, povo de intempestivos rompantes!
Cortai galerias emplumadas, enchei com odor acre os espaços diminutos, apinhados de gente sensata.
Mostrai a cara, oh deus dos danados, às frontes rosadas infames...
Mostrai a cara, oh bicho raivoso, para que vejam o assombro dos séculos passados:
chicotes, tumbeiros e palmares.
Oh, povo de intempestivos rompantes!
Cortai galerias emplumadas, enchei com odor acre os espaços diminutos, apinhados de gente sensata.
Mostrai a cara, oh deus dos danados, às frontes rosadas infames...
Mostrai a cara, oh bicho raivoso, para que vejam o assombro dos séculos passados:
chicotes, tumbeiros e palmares.
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
UNO SEM VERSO
Por que se suicidam as flores quando se sentem amarelas?
Pablo Neruda.
Pablo Neruda.
Já se disse da História mais do que sobre a vida. Teorizou-se bastante ao ponto de cindir o mundo das letras do mundo das paixões cotidianas. Fez-se da abstração o sentido último da atividade pensante como se atividade tivesse sentido e conforto na imobilidade de um ponto.
Pontinhos de interrogação vertidos em alunos encharcam as instituições de ensino superior todos os anos ou semestres com a curiosidade própria da juventude que em qualquer tempo quer estar à altura de seu tempo para ver adiante. Universidade, capela que vela o conhecimento criado pela humanidade. Bendito carneiro, que promete com sua expiação um mundo abastado de trigo e canto – feliz. "Veremos outras matizes de cores", dizia eu para um amigo quando me fiz estudante de história.
Nada sabia sobre um maldito consenso gerado em outras terras que afirmava que a vida em todas as suas dimensões era vendável. Paulo Freire e sua utopia revolucionária? Besteira. Da educação se fez um pacote, mercadoria de vitrine, e os educadores atônitos embarcaram no projeto covarde das milícias empresariais. Mais uma vez a vitória do abismo que separa o labor especulativo da vida concreta dos povos.Voltamos à escolástica medieval? Quase. Entramos na Idade da pragmática do cálculo que mensura custo e benefício a serviço de uma produtividade nociva. Ontem, as letras a serviço da prova racional e inconteste da existência de Deus. Hoje, os esforços para aplacar a fúria do Deus-Mercado.
No meu caminho pela História-Institucional esbarrei-me em muitas dificuldades, sobretudo, no falar tóxico dos intelectuais de gabinetes, gente feia que seduz somente os fracos de espírito. Uma mórbida fixação pelo falar enrolado que diz mais do grupo hermético, orgulhoso de seu lugar no mundo, do que sobre História e as implicações desse saber para a vida. Dificuldades outras - de adaptação mesmo! - quando constrangimentos alheios prescreviam minha ética condenando-me ao embotamento. Assédios morais, para os que se viciaram na linguagem dos copistas modernos. Queria cores - estudante de história, enorme ponto de interrogação: Deram-me a assepsia de um conhecimento aplicável aos interesses do meu umbigo desde que ele fosse compatível aos interesses do mercado.
Pelos corredores, ainda se ouvem alaridos assustados em esforço vão para abafar a angústia de uma possível vida sem ordem onde o estômago se faz mais presente do que os sonhos. Salve-se quem puder! O deboche é ensinado com esmero, distintivo dos que se querem mortos com a alegria fingida dos meio-sorrisos. Se quiser a alcunha de ex-revolucionários, por que não? Serve qualquer disfarce para entorpecer a vida. Aqui os poetas são charlatões, escárnio do niilismo de intelectuais debochados - os merdinhas de sempre, decrépitos em sua atividade de morte, concentrados em sentenciar verdades dentro de seus prumos engravatados com ares desleixados de coroas "ligadões" . Aqui, a vida sempre está pela metade, e o coração hipotecado.
Nós. Geração do consenso? Covardes temerosos do parricídio necessário?Talvez o vermelho renitente de uma flor que se quer amarela. O mesmo vermelho que correu das veias dos antigos, velhos garrucheiros a disputar o amor à bala. Amor que não se agüenta: violenta o mundo criando caminhos diversos, in-versos. Nós, alunos vertidos poetas, apanhadores de sonhos dos tempos passados, portanto, do tempo por-vir.Historiadores. Mais que isso: Revolucionários! Crianças a construir castelos para destruir com o peito sempre aberto de Sol de todos os Outubros que foram, são e virão.
domingo, 10 de agosto de 2008
Os de hoje
Acompanhemos destas paragens suburbanas, trópicos de tantos outros trópicos, o suposto de miragens-filosóficas-indígenas que nos acalenta com o mais terno mito. E comecemos por ele, o mito fundador, que me arrasta para as esquinas sem beiras, que me entope de gozo, primaveras a roçar os nossos cílios, para sempre. O sempre do tempo oportuno (a nossa única pragmática), da bonança. Tu sentes esse tempo, irmão? Somos os primeiros homens, não há para trás pra nós. Nem pra frente.Comecemos do alto, costume pra respirar ar vivo:A primeira das questões na ponta de lança do ataque em transe dos Tupinambás. Está consubstanciada na carne de Cristo, bocas e bocas a tocar às chagas – gozo católico, meu e seu também. E vem como um estouro na calmaria das selvas de coca colombianas, resignada na boca de um aymará, a provocar distúrbio. Tu sentiste também no peito a altura destes Andes que nos metemos?
quarta-feira, 19 de março de 2008
Ouvidos para Fidel
Abre clarões à cega na procura doentia do novo combustível do futuro.
O povo agüenta com o sabor acre, mais uma vez.
A mamona vigora nos campos enchendo olhos e bochechas rosadinhas.
Futuro portentoso da terra que viceja por vícios repetidos.
E deus, o homem-barba que perdera o dedo mindinho quando da sua vinda pros campos de concentração, não permite o sacrifício necessário.
Brasil com seus negros viris de braços grossos, com a sua cor vermelha de terra, de corante de pau, agüenta o tranco porque a dor é o seu desejo incontido.
Filhos da ordem, sem as turbas bárbaras do norte, só permitimos o tapinha nas costas porque as almas, mesmo aviltadas, não se embotam.
Não se admite martelos e foices porque os terços continuam nos dedos.
Sábio povo de ancas largas!
Sábias frontes rosadas imberbes que cultuam estrelas vermelhas;
Esperam, ansiosas, o florescer inepto da barba revolucionária, e o gotejar mortífero dos óleos dos campos desérticos.
O povo agüenta com o sabor acre, mais uma vez.
A mamona vigora nos campos enchendo olhos e bochechas rosadinhas.
Futuro portentoso da terra que viceja por vícios repetidos.
E deus, o homem-barba que perdera o dedo mindinho quando da sua vinda pros campos de concentração, não permite o sacrifício necessário.
Brasil com seus negros viris de braços grossos, com a sua cor vermelha de terra, de corante de pau, agüenta o tranco porque a dor é o seu desejo incontido.
Filhos da ordem, sem as turbas bárbaras do norte, só permitimos o tapinha nas costas porque as almas, mesmo aviltadas, não se embotam.
Não se admite martelos e foices porque os terços continuam nos dedos.
Sábio povo de ancas largas!
Sábias frontes rosadas imberbes que cultuam estrelas vermelhas;
Esperam, ansiosas, o florescer inepto da barba revolucionária, e o gotejar mortífero dos óleos dos campos desérticos.
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